Adaptação à mudança do clima deixou de ser agenda ambiental para ser variável econômica
Líderes da agenda ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança) de empresas brasileiras que integram o núcleo natureza e clima do Pacto Global da ONU no Brasil efetuaram visita técnica ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) na quinta-feira (27/08). A atividade faz parte do plano de trabalho para aprofundar o conhecimento do setor privado sobre a agenda de adaptação à mudança do clima, tendo como principal referencial a plataforma AdaptaBrasil, desenvolvido a partir do Acordo de Cooperação firmado com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
A visita técnica marca a transição das análises conceituais sobre risco climático para a aplicação prática da agenda de adaptação, sob a perspectiva da natureza e da biodiversidade. Além de conhecer produtos e serviços gerados para o subsídio de políticas públicas, os participantes receberam orientações sobre como explorar a plataforma e detalhou componentes essenciais para construir uma estratégia de adaptação robusta.
Atualmente, o hub natureza e clima reúne 52 organizações. A iniciativa visa integrar a natureza nas estratégias empresariais e tornar os negócios resilientes à mudança do clima. As atividades desenvolvidas ao longo de 2026 foram dedicadas à conscientização. O objetivo da segunda fase, prevista para 2027, é que cada empresa consiga olhar as operações e movimentar a agenda de adaptação, endereçando ações de acordo com os cenários climáticos.
Para Hugo Ricardo, gerente de Clima, Agricultura e Florestas do Pacto Global da ONU Rede Brasil, o momento é de transformar diagnóstico em implementação. "Adaptar-se aos cenários climáticos deixou de ser uma resposta pontual e passou a exigir metas baseadas na ciência, com prazos e indicadores claros. É esse rigor que dá credibilidade às estratégias empresariais e evita que a adaptação vire apenas um discurso. No Pacto Global, trabalhamos para que empresas utilizem os dados de plataformas como o AdaptaBrasil para transformar risco em planejamento de longo prazo, conectando ciência, negócio e território", afirmou.
Na abertura, o coordenador-geral de Ciência do Clima do MCTI, Márcio Rojas, enfatizou a importância de a iniciativa privada se engajar na agenda de adaptação à mudança do clima e na utilização de evidências no planejamento de ações para aumentar a resiliência, especialmente diante de eventos climáticos que estão mais frequentes e intensos.
Segundo ele, a adaptação deixou de ser uma agenda ambiental e passou a ser variável econômica com importância maior. “Por muito tempo a mudança do clima foi tratada como problema de emissões, mas tem uma parcela da mudança do clima que já está contratada. Essa parcela será administrada e não negociada”, explicou Rojas.
O planejamento de adaptação envolve toda a cadeia produtiva. A localização de ativos, o transporte e a produção primária estão entre alguns dos exemplos que podem ser afetados por eventos climáticos e que passam por avaliação e reavaliação diante da mudança do clima. Nesse sentido, a plataforma AdaptaBrasil apresenta dados para apoiar o planejamento. “Encurta a distância entre a ciência e a economia brasileira para a tomada de decisão”, afirmou.
Para o diretor do Inpe, Antonio Miguel Monteiro, a plataforma AdaptaBrasil é um produto singular que dialoga com políticas públicas e com diferentes instituições de excelência para a coprodução de indicadores e é marcada pela transversalidade. “Precisa de diálogo com diferentes atores”, defendeu o diretor que pretende transformar a plataforma num programa permanente.
Neste ano, a plataforma AdaptaBrasil apresentou a ferramenta Painel Cidades, que facilita a consulta ao reunir os dados de todos os setores estratégicos por município. O plano de melhorias da plataforma contempla a incorporação de novos cenários com projeções climáticas atualizadas para o Brasil, de acordo com as trajetórias de aquecimento global, e de novos setores estratégicos, como Zonas Costeiras e Agricultura Familiar.
Sobre a plataforma AdaptaBrasil: O AdaptaBrasil tem se consolidado como a principal ferramenta pública para identificação, análise e priorização de riscos sobre impactos climáticos no país. Os dados são gratuitos e abertos. Índices e análises de risco de climático para todos os municípios brasileiros O objetivo da plataforma é apoiar os gestores, sejam públicos ou privados, na tomada de decisão sobre planejamento de ações voltadas à adaptação à mudança do clima, considerando médio e longo prazos. Trata-se de uma iniciativa conjunta do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP).
A plataforma está citada na Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil como fonte estratégica de informações. Os dados foram utilizados para construir as análises de risco dos planos setoriais de adaptação do Plano Clima.
A metodologia empregada na construção de índices e indicadores considera as melhores práticas recomendadas no âmbito científico global. A ferramenta reúne informações sobre ameaça climática, exposição e vulnerabilidade, traduzidas em índices e indicadores, para nove setores estratégicos: Recursos Hídricos; Segurança Energética; Segurança Alimentar; Saúde; Infraestrutura Portuária, Ferroviária e Rodoviária; Biodiversidade e Desastres-Geo-Hidrológicos. A plataforma projeta ainda ameaças climáticas nos horizontes temporais de 2030 e 2050, considerando os cenários presente, pessimista e otimista, e em breve as novas atualizações abordarão cenários por nível de aquecimento.