Recursos Hídricos

A crise climática está alterando o ciclo hidrológico em todo o planeta. No Brasil, isso se traduz em secas prolongadas, estiagens fora de época, inundações de grande magnitude e variações bruscas no regime de chuvas. Em cenários como esses, a oferta de água torna-se progressivamente mais incerta e desigual, ao mesmo tempo em que a demanda pelo recurso aumenta em diversos setores – da produção agrícola ao consumo urbano.

O Estudo Impacto da mudança climática nos Recursos Hídricos do Brasil, publicado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) em 2024, aponta que o país já sente os efeitos da mudança do clima em seus recursos hídricos. A tendência, segundo projeções da ANA, é de agravamento nos próximos anos. Com o aumento da temperatura e da evapotranspiração, o Brasil pode enfrentar déficits hídricos mais frequentes, com consequências econômicas, sociais e ambientais.

Os impactos variam conforme a região, mas, de maneira geral, têm o potencial de aumentar a pressão sobre a disponibilidade hídrica e sobre a capacidade dos sistemas de abastecimento de lidar com eventos extremos. Isso afeta não apenas o suprimento de água potável, mas também a geração de energia, a produção de alimentos, a manutenção de ecossistemas e a qualidade de vida de milhões de brasileiros.

Além disso, a vulnerabilidade social amplia os efeitos dessas mudanças. Populações mais pobres, em áreas de risco ou sem acesso a infraestrutura adequada, são mais impactadas por secas, enchentes e falhas no abastecimento. 

Nesse cenário, cresce a importância de políticas públicas baseadas em dados atualizados, cenários futuros e estratégias robustas de adaptação. Essa abordagem parte do reconhecimento de que se não é possível prever o futuro com precisão, é preciso estar preparado para operar em diferentes cenários possíveis. 

O Setor Estratégico Recursos Hídricos do AdaptaBrasil nasce a partir desse contexto, e tem o objetivo de ampliar o acesso público a dados confiáveis, indicadores atualizados e projeções futuras.

Avaliação de Risco

Entre 2023 e 2025, o Setor Estratégico Recursos Hídricos foi redesenhado para contemplar dados atualizados da ANA e metodologias já utilizadas pela agência.

A versão 2.0 do Setor enfatiza os riscos relacionados à escassez hídrica (disponibilidade) e ao estresse hídrico (acesso) à água, incluindo abastecimento humano, manutenção da saúde e bem-estar, manutenção dos serviços ecossistêmicos de regulação hídrica e desenvolvimento de atividades socioeconômicas.

Conceitos‐chave: escassez de água e estresse hídrico

A nova versão conecta o risco de escassez hídrica (ameaça) ao risco de estresse hídrico (resultado da interação da ameaça com a vulnerabilidade e exposição socioecológica), contemplando riscos em cascata que se iniciam no clima, atravessam o ciclo hidrológico e impactam na sociedade. 

Apesar das margens de incerteza inerentes a qualquer cenário climático, os exercícios de projeção convergem em um alerta comum: a água tende a se tornar mais escassa em boa parte do território brasileiro nas próximas décadas. 

Modelos analisados pela ANA e por centros acadêmicos apontam queda de vazão em praticamente todas as bacias hidrográficas, acompanhada de temperaturas mais altas e evapotranspiração crescente, no período 2011-2040. 

Os sinais são especialmente fortes no leste da Amazônia e no Nordeste, regiões onde estudos como O futuro clima do Brasil, de José Luiz Marengo (2014) detectam aumento na frequência e na duração dos dias secos consecutivos.

Esse aquecimento, combinado à maior perda de umidade do solo, tende a reduzir a oferta de água justamente quando a demanda sobe – seja para irrigar lavouras, resfriar usinas, abastecer cidades ou dessedentar rebanhos. Com isso, reservatórios trabalham sob maior estresse e o balanço hídrico regional fica mais vulnerável a oscilações extremas.

A ligação entre escassez de água e estresse hídrico pode ser entendida da seguinte forma: a escassez altera o balanço hídrico; se a infraestrutura não for capaz de compensar essa queda, emerge o estresse hídrico, que se manifesta no cotidiano das pessoas e das atividades produtivas.

Lógica de cadeia de impactos

Para a nova versão do Setor Estratégico Recursos Hídricos, os técnicos da ANA e do INPE mapearam uma sequência de três níveis de impacto (Figura 1) quando a ameaça é a escassez hídrica:

  • Primeira ordem – Ciclo hidrológico
    Alterações nos fluxos naturais de precipitação, vazão, evapotranspiração e recarga subterrânea.
  • Segunda ordem – Sistema hidrológico
    Redução da disponibilidade superficial e subterrânea, perda de capacidade de armazenamento e, caso persista, degradação da qualidade da água via concentração de poluentes.
  • Terceira ordem – Sistema humano
    A indisponibilidade de água e o esvaziamento de reservatórios comprometem o acesso aos recursos hídricos, afetando abastecimento público, irrigação, indústria, navegação e geração hidrelétrica.

 

Figura 1 – Hierarquia teórica de impactos sobre os recursos hídricos em situações de escassez hídrica

 

 

A nova flor de risco do Setor Estratégico Recursos Hídricos 

 

Figura 2 – Desenho teórico da avaliação dos riscos em cascata de escassez hídrica e do risco de estresse hídrico

 

 

Na cadeia de risco de impacto para recursos hídricos (Figura 2), a avaliação do risco de estresse hídrico é desencadeada pela combinação do risco de escassez hídrica enquanto ameaça com as características de vulnerabilidade e exposição do sistema socioecológico. Essas características impactam o acesso aos recursos hídricos para diversos usuários, como os setores produtivos (ex: agropecuária, indústria de transformação, mineração e termoenergia) e o abastecimento humano.

 

Setor Estratégico de  Recursos Hídricos: hierarquia de indicadores

A nova versão do Setor Estratégico de Recursos Hídricos passa a operar com uma estrutura ampliada de indicadores, totalizando 38 variáveis organizadas em quatro dimensões.

  • Ameaça: considera agora não apenas variáveis climáticas diretas (como precipitação e temperatura), mas também a disponibilidade hídrica projetada, com base na Modelagem Hidrológica Budyko, apresentada no relatório Impacto da mudança climática nos Recursos Hídricos do Brasil.
  • Sensibilidade: usa a base nacional de usos consuntivos da água, organizada pela ANA, que identifica os trechos de rio com captação significativa para setores como abastecimento urbano, agricultura irrigada, indústria e termelétricas. Essa dimensão permite visualizar quem depende da água e onde está exposto a alterações no regime hídrico, com dados setoriais georreferenciados.
  • Capacidade adaptativa: composta por indicadores institucionais e de infraestrutura que expressam a capacidade de resposta local. Inclui variáveis como presença de planos de bacia, agências de gestão, cobertura de abastecimento e esgotamento sanitário, e o indicador nacional do ODS 6 sobre governança da água.
  • Exposição: representa a presença de elementos humanos, econômicos ou ambientais em áreas sujeitas a impactos causados pela escassez hídrica. No Setor Estratégico de Recursos Hídricos, essa dimensão foi adaptada para evidenciar onde estão os sistemas mais dependentes da água - como grandes centros urbanos, polos agrícolas e áreas industriais - que, se afetados por variações climáticas, podem sofrer consequências significativas.

Essa estrutura foi construída para refletir a lógica de risco em cascata, da ameaça climática à pressão sobre sistemas hídricos, passando pelos pontos de fragilidade e capacidade de resposta. O resultado é uma flor de risco mais alinhada à realidade do setor,  permitindo leituras mais aplicáveis por estados, municípios, comitês de bacia e prestadores de serviços.

Setor Estratégico de Recursos Hídricos: mapas de risco

Os mapas do Setor Estratégico representam a síntese visual dos componentes de risco climático sobre a água no Brasil, permitindo identificar padrões territoriais, sobreposições críticas e regiões com maior necessidade de adaptação.

Com base nos três componentes centrais da flor de risco – ameaça climática, exposição e vulnerabilidade (esta última formada por sensibilidade e capacidade adaptativa), os mapas revelam como diferentes regiões do país podem ser afetadas por cenários de escassez de água e estresse hídrico e qual o nível de preparação de cada uma delas.

A leitura integrada dos mapas permite responder a perguntas como:

  • Onde a vazão dos rios tende a diminuir mais nos próximos anos?
  • Quais regiões concentram usuários altamente dependentes da água?
  • Onde há maior fragilidade institucional e menor capacidade de resposta?

A navegação pelos mapas é interativa, e pode ser feita por bacia hidrográfica, estado ou microrregião. Ao clicar sobre cada unidade territorial, o usuário acessa os dados dos indicadores utilizados na avaliação e a classificação final de risco. 

Os mapas são apresentados em em três horizontes de tempo (2030/2050/2070) e dois cenários climáticos: Otimista e Pessimista.
 

 

Destaques regionais

Segundo a ANA, a projeção do impacto da mudança climática nos recursos hídricos por região do Brasil é a seguinte:

Centro-Oeste 

Dentre as cinco regiões brasileiras, o Centro-Oeste possui uma maior divergência entre as tendências das projeções dos diversos modelos climáticos, o que traz incertezas nas condições futuras do clima da região. Ainda assim, é necessário avaliar a adoção ou não de medidas que considerem possíveis cenários de escassez hídrica. 

Com a necessidade de aprimoramento dos instrumentos de tomada de decisão mesmo sob incertezas, o Centro-Oeste é uma região estratégica por ter nascentes de importantes rios – como o Tocantins, o Araguaia, o Paraguai e afluentes formadores do rio Paraná – e por concentrar grandes áreas de produção agrícola.

Nordeste 

No Nordeste há uma tendência de redução das vazões dos rios e dos volumes médios de chuvas, trazendo uma perspectiva de diminuição da disponibilidade de água da região e intensificação da seca tanto no semiárido quanto na faixa litorânea. Com isso, existe a necessidade de adotar medidas de convívio com períodos de seca mais severos e prolongados, que levem ao aumento da oferta de água e à racionalização dos usos na região semiárida e no litoral nordestino.

Norte 

O Norte possui tendência de redução nas vazões e volumes médios de chuvas e a perspectiva de secas mais frequentes e intensas. Esse quadro requer medidas de gestão da demanda hídrica, incluindo o aprimoramento da infraestrutura para possibilitar a mobilidade para comunidades mais isoladas que dependem da navegação em rios para se locomover e ser abastecidas, além de preparação para a proteção dos ecossistemas em um cenário de maior escassez de água nessa região que abriga grande parte da Amazônia. 

Sudeste 

O Sudeste ainda apresenta certa divergência entre os resultados dos modelos, mas predomina, sobretudo na faixa litorânea, a tendência de redução nas vazões em função da mudança climática, ocasionando a diminuição da disponibilidade de água nas bacias hidrográficas do Sudeste. 

Como a região concentra a maior população regional e grandes centros urbanos – como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte –, é necessário investir em estratégias de adaptação à mudança do clima, maior eficiência no uso e na gestão de recursos hídricos e ampliação da infraestrutura hídrica para as populações mais vulneráveis.

Sul

Diferente do restante do Brasil, o Sul possui uma tendência de aumento na disponibilidade hídrica e, ao mesmo tempo, de aumento da imprevisibilidade climática na região, com eventos concentrados de cheias e secas. Por isso, será preciso adotar medidas de preparação para oscilações desde excesso de água até a escassez do recurso. Será necessário, ainda, adotar medidas de gestão da demanda hídrica e considerar a questão da infraestrutura de proteção contra cheias.

O processo de atualização do Setor Estratégico Recursos Hídricos

A atualização do Setor se apoiou em um movimento iniciado dentro do AdaptaBrasil, que teve como objetivo revisitar os marcos teóricos de risco climático para incorporar a ideia de cadeias de impacto e riscos em cascata. 

A partir desse estudo, a equipe do AdaptaBrasil buscou a ANA, detentora do conhecimento operacional sobre gestão de recursos hídricos no país. Entre setembro e novembro de 2023, ocorreram cinco reuniões estratégicas e um workshop que alinharam expectativas e abriram caminho para a construção colaborativa da versão 2.0 do Setor Estratégico. A parceria avançou em novos encontros ao longo de 2024, comparando metodologias, nivelando bases de dados e selecionando indicadores que fizessem sentido para ambos os lados.

O resultado final é um setor redesenhado, que preserva a expertise e os instrumentos já consolidados pela ANA – como limiares hidrológicos e índices de segurança hídrica –, mas os insere em uma estrutura de risco climático mais abrangente, capaz de dialogar com projeções de mudança do clima, exposição socioeconômica e vulnerabilidade institucional. 

Como governos, setor privado e sociedade civil podem usar os dados

Os dados do setor Recursos Hídricos no AdaptaBrasil 2.0 estão organizados de forma a apoiar ações práticas de adaptação em diferentes níveis de gestão:

  • Gestores públicos municipais e estaduais podem identificar áreas críticas onde há risco de falta d'água, seja por escassez climática ou infraestrutura deficiente, e usar essa informação para embasar pedidos de financiamento, priorizar obras e formular planos de contingência.
     
  • Comitês de bacia hidrográfica podem cruzar os dados de risco com outorgas e usos múltiplos para apoiar decisões sobre alocação de água, resolução de conflitos e revisão de planos de bacia.
     
  • Empresas de saneamento, irrigação ou energia podem avaliar riscos climáticos futuros nas regiões onde atuam e ajustar seus planos de investimento, operação e manutenção.
     
  • Pesquisadores, jornalistas e organizações da sociedade civil ganham acesso a uma ferramenta pública e transparente para monitorar e comunicar os desafios da segurança hídrica no Brasil.
     

O AdaptaBrasil permite não só explorar cenários futuros, mas agir no presente com base em evidências. A plataforma pode ser usada como ponto de partida para planos municipais de adaptação, estratégias de resiliência hídrica e políticas públicas integradas de clima e água.

Marcos, instrumentos, relatórios e referências relevantes para o setor de recursos hídricos do Brasil

Algumas das referências consultadas e que embasam o desenvolvimento do SE de Recursos Hídricos são citadas a seguir. O Plano Nacional de Recursos Hídricos (2006) representou um marco fundamental na política de gestão hídrica do país, estabelecendo diretrizes estratégicas para orientar o uso, a conservação e a recuperação dos recursos hídricos com metas e ações até 2020.

Na sequência, os Relatórios Plenos de Conjuntura dos Recursos Hídricos (2009–presente) trouxeram diagnósticos anuais periódicos sobre a situação das águas no Brasil, oferecendo subsídios técnicos e indicadores para orientar políticas públicas e a tomada de decisão no setor. Em 2013, foi desenvolvido o estudo de Definição de trechos críticos em corpos d’água, voltado à identificação de áreas mais vulneráveis à degradação e à escassez hídrica, contribuindo para a priorização de ações de monitoramento e recuperação de bacias hidrográficas.

O Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima (2016) incorporou a dimensão climática à gestão de recursos hídricos, evidenciando a necessidade de fortalecer a resiliência dos sistemas de abastecimento frente a cenários de variabilidade e mudança do clima.

Em 2017, o Atlas Esgotos: despoluição de bacias hidrográficas passou a oferecer uma visão abrangente sobre a situação do saneamento e suas implicações diretas na qualidade das águas, reforçando a articulação entre políticas de saneamento e de recursos hídricos.

O lançamento do Plano Nacional de Segurança Hídrica (2019) marcou uma nova etapa, ao consolidar projetos e investimentos estratégicos voltados à garantia da disponibilidade hídrica para múltiplos usos, com foco em regiões mais críticas.

A partir de 2021, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) publicou dois instrumentos centrais: o Manual de Usos Consuntivos da Água no Brasil, que detalha metodologias e parâmetros de demanda hídrica, e o Atlas Águas: segurança hídrica do abastecimento urbano, dedicado à análise da oferta e demanda de água nas cidades brasileiras.

Em 2022, novos avanços foram registrados com:

Mais recentemente, em 2024, foi publicado o Estudo sobre o Impacto da Mudança Climática nos Recursos Hídricos no Brasil – 1ª Edição, oferecendo uma avaliação aprofundada sobre riscos, vulnerabilidades e cenários futuros de disponibilidade hídrica em função das alterações climáticas e que dialoga diretamente (aproximando metodologias) com o desenvolvimento da nova versão do SE Recursos Hídricos do AdaptaBrasil.

Para conhecer os Índices e Indicadores do Setor Estratégico Recursos Hídricos, clique aqui.